Publicado por: lucianorf em: 05/09/2009
Era uma manhã ensolarada de Domingo quando o pai de Zezinho o chamou por volta do meio-dia:
- Zezinho, venha! Vamos almoçar!
Prontamente Zezinho atendeu, buscando um carrinho que sempre levava junto com ele durante os almoços. Ao encontrar com o pai, perguntou:
- Pai, onde vamos almoçar?
- No mesmo restaurante de sempre, Zezinho!
- Ah, pai, não vamos lá hoje não…
O pai, com um ar surpreso e desfazendo o seu sorriso do rosto após de ter dado a resposta ao filho ficou encucado com o comentário. Zezinho sempre adorava a massa do lugar.
- Ué Zezinho, você não está com vontade de comer aquela massa que você tanto adora?
- Não é isso pai, aquele restaurante não está aberto hoje. Não tem mais restaurante lá…
O pai de Zezinho não se conteve, tentou disfarçar uma risadinha e disse:
- O que é isso meu filho, de onde você tirou essa idéia?
Zezinho não tinha 6 anos completos, idade na qual muitas vezes a imaginação das crianças trazem um turbilhão de ideias. Contrariado, Zezinho entrou no carro branco do pai, sabendo que mais tarde teriam que procurar um outro lugar para o almoço daquele Domingo…
No caminho para o restaurante que ficava em uma cidade situada há uns vinte quilômetros de distância da sua, Zezinho ia brincando com o seu carrinho e olhando os carros que passavam ao seu lado, alguns em alta velocidade e outros que estavam muito devagar, fazendo com que seu pai mudasse de pista e ele tivesse que olhar para a janela do outro lado. Gostava de sentar no banco traseiro bem no meio, para poder ver a estrada a sua frente. Naquele tempo, cinto de segurança não era obrigatório e tinha muito menos movimento na estrada federal que utilizavam do que nos dias atuais. Raramente prestava atenção nas conversas dos seus pais no banco da frente. Estava mais empolgado na sua brincadeira de criança e ver os diferentes carros que passavam pelo caminho.
Zezinho não tinha muita noção de tempo ainda, mas achava longe o restaurante. O trajeto foi percorrido em não mais que vinte e cinco minutos. Aproximando-se do local, Zezinho passou a prestar atenção que seu pai começava a desacelerar o seu automóvel e sem hesitar, o pai perguntou para a mãe de Zezinho:
- O restaurante está fechado?
A mãe, surpresa por não ver nenhum movimento de pessoas na entrada, não ver nenhum carro estacionado e ver as janelas fechadas, respondeu:
- Sim meu bem, creio que sim! Talvez eles não estejam mais atendendo aos domingos. Parece que tem um aviso na porta, estaciona e vamos verificar o que está escrito.
Zezinho, esboçando um sorriso no rosto, ficou calado. Sabia que o que havía dito cerca de meia-hora atrás era verdade.
Após parar o carro, todos desceram. Chegando na porta principal do estabelecimento se deram conta de que o restaurante realmente estava fechado. Pensaram que o anúncio poderia ter sido referente a um “motivo de força maior” como o falecimento de um dos proprietários. Mas não era. Perceberam então que Zezinho nunca mais poderia comer a massa que tanto gostava pois o restaurante de todos os domingos havia realmente fechado, para sempre.
O pai, olhando para Zezinho com uma cara de espanto, pediu para que todos voltassem ao carro para procurar um outro lugar para almoçarem. A curiosidade do menino e sua satisfação em entender que aquilo que ele havia previsto estava sendo realizado, o fez disparar uma pergunta após a outra, sem pausas, como é comum nas crianças de mesma idade que ele:
- Pai, o que houve? Por que o restaurante está fechado? Chegamos muito cedo? E agora?
O pai respondeu que o anúncio na porta informava que naquele local iria abrir uma fábrica. E que o restaurante não mais existia. Encucado com o acontecimento, perguntou ao filho:
- Zezinho, como você sabia que o restaurante estava fechado e que ele tinha deixado de existir?
Com muita convicção na resposta e com um ar de sabedoria, Zezinho respondeu:
- Pai, eu vi! Quando você me perguntou eu vi o restaurante com a porta fechada, sem carros, nós parados na frente do restaurante e você nos pedindo para voltar para o carro.
O pai e a mãe se olharam muito espantados, o pai engoliu a saliva e naquele momento não soube o que responder. O silêncio foi interrompido pelo barulho do motor e o pé no acelerador do pai do Zezinho que arrancou o carro à procura de um novo local para aquele almoço especial (pelo menos para o menino) de domingo. A mãe virou-se e olhou o menino com um sorriso amarelado, também sem dizer nenhuma palavra.
Zezinho, contente, olhou para o carrinho que segurava na mão, voltou a olhar para os carros que passavam na estrada. Não se importava de não poder comer mais aquela massa todos os domingos, não entendia muito aquilo que havia previsto. Só iria entender muito mais tarde, com o passar dos anos.
Assim começou o dom de Eusébio, uma criança diferente não só pelo seu nome (que foi dado pelo seu pai para homenagear o jogador português de origem moçambicana que era conhecido por “Pantera Negra”, considerado um dos melhores futebolistas de todos os tempos), mas também pelos seus dons que viria a desenvolver durante a sua vida.